Antes da guerra, o Brasil já sofria com os juros. Desde junho do ano passado, a Selic estava em 15% ao ano. O maior patamar desde 2006.
Para março, o mercado projetava um corte de 0,50 ponto percentual. Não era muito, mas era o começo de um alívio que o empresário brasileiro estava esperando há tempo.
A guerra mudou o plano. O corte veio pela metade: 0,25 ponto. A Selic foi de 15% para 14,75%.
O valor já não era expressivo. Ficou ainda menor.
Para entender por que uma guerra no Oriente Médio teve força suficiente para mudar a decisão do Banco Central brasileiro, o caminho começa num estreito que a maioria das pessoas nunca ouviu falar.
O petróleo como gatilho de preços
No final de fevereiro, EUA e Israel lançaram uma ofensiva aérea de grandes proporções contra o Irã. Mas a reação imediata dos mercados não foi sobre política ou diplomacia. Foi sobre petróleo.
O Estreito de Ormuz, corredor entre o Irã e os Emirados Árabes, é por onde passa cerca de 20% de todo o petróleo negociado no mundo. Qualquer ameaça a esse corredor faz o mercado financeiro entrar em alerta preventivo. Nos dias seguintes ao ataque, o preço do barril saltou mais de 20%.
O problema é que o petróleo mais caro não encarece só o combustível. Ele também encarece o frete, os insumos e a cadeia de produção. E quando esses custos sobem de forma generalizada, a inflação sobe junto.
É aqui que o Oriente Médio entra no seu caixa: quando a inflação sobe lá fora, o Banco Central aqui dentro não consegue baixar os juros.
A resposta do Banco Central
Antes da guerra, o cenário era diferente. A probabilidade de um corte de meio ponto percentual na Selic era de 83%, segundo os contratos de opções negociados na B3.
O mercado estava quase certo de que o alívio vinha.
Então o conflito escalou. O petróleo subiu. O câmbio oscilou. E o Banco Central chegou na reunião com um problema novo: qualquer corte mais agressivo nos juros, num momento de inflação pressionada por fora, poderia desancorar as expectativas e tornar o problema ainda maior.
O resultado foi o corte mínimo. E um comunicado que sinalizou cautela para os próximos passos.
Hoje, o Boletim Focus confirmou o que já estava no ar: o mercado elevou as projeções de inflação e Selic pela segunda semana seguida. O IPCA esperado para 2026 subiu para 4,17%. A projeção da Selic para o fim de 2026 subiu 0,25 ponto em relação à semana anterior.
O corte que aconteceu na semana passada já não é mais o referencial. O mercado está olhando para frente e vendo um caminho mais lento.
O impacto nas parcelas de crédito
Existe uma confusão comum que precisa ser desfeita: a Selic não é a taxa que você paga no banco. É o piso. O banco pega esse número e empilha por cima os próprios custos: spread, risco de inadimplência, custo operacional, margem de lucro.
A taxa média do crédito livre para empresas está em 23,9% ao ano, segundo dados do Banco Central. Um quarto de ponto na Selic não move esse número de forma perceptível. A empresa que está pagando capital de giro a 2% ao mês vai continuar pagando praticamente o mesmo valor nas próximas semanas.
E o comportamento do banco com as empresas tende a piorar antes de melhorar. Porque quando grandes empresas reestruturam dívidas em série, a primeira reação do sistema é apertar a concessão de crédito para os demais.
Quem sente isso com mais força são as empresas que faturam bem mas fogem do perfil que o banco quer ver: histórico sem mancha, garantias extras, balanço impecável.
80% dos empresários que tiveram problemas para acessar crédito em 2025 citaram os juros altos como o maior entrave, segundo pesquisa da CNI. Não foi a burocracia. Não foi a documentação. Foi o custo.
Quanto tempo ainda vai durar esse cenário
O mercado projeta que a Selic chegue a 12,5% no fim de 2026. Mas essa projeção pressupõe que o conflito no Oriente Médio não escale, que a inflação global não surpreenda e que o cenário eleitoral aqui dentro não adicione ruído. São muitas variáveis fora do controle de qualquer empresário.
E mesmo que tudo saia como o mercado projeta, os juros do crédito bancário vão continuar em dois dígitos durante boa parte de 2026 e 2027.
O empresário que está esperando o crédito ficar barato para investir pode estar esperando por mais tempo do que imagina. E enquanto ele espera, o caixa não para. As contas não esperam. O concorrente também não.
A guerra no Oriente Médio não criou o problema do crédito caro no Brasil. Ela só adiou, mais uma vez, a data em que ele deixaria de ser problema.
Para quem não pode esperar essa data, existe um caminho diferente do banco. É o que a Inter Intermediações faz.



